Por esses dias eu devo receber um email, um email meu de algum tempo atrás, através daquela ferramenta de programar uma data de envio de mensagem e tal.

Olha, eu não sei porquê ainda faço isso... Geralmente meu eu do passado não tem bons conselhos pro eu do presente, e apesar de escolher uma data aleatória eu geralmente não consigo abstrair o suficiente, e sou sempre um pouco dura demais com a pessoa que fui no passado. Demasiadamente crítica. Já cansei de apagar coisas que o Facebook me lembra que um dia postei, julgando a forma como pensava ou me expressava. 

 Há bem pouco tempo comecei a aprender a ser mais gentil com a pessoa do meu passado, respeitar mais o processo dela. Aqui mesmo, neste site, posso contar nos dedos os textos que ainda gosto quando leio. Para maioria eu torço o nariz, mas deixo aqui, porque são registros de mim. De alguém que sentiu de forma legítima tudo isso. Hoje me lembro do contexto de cada texto, das razões por trás de cada um, e das sensações que por vezes até sinto falta. Ainda me vem à boca o gosto de cada momento: do cansaço; do trânsito; do ônibus gelado de noite; a certeza que eu que já seria outro dia quando chegasse em casa, e que tão logo eu precisaria fazer o caminho de volta; a sensação de não pertencimento; a dor no estômago e peso no peito. Tanto nó na garganta e na cabeça que escrever parecia a maneira mais fácil de desatar.

Talvez a pessoa do futuro quando me ler também torça o nariz para essas palavras, menospreze a ainda pouca habilidade com a escrita e a forma sempre meio desajeitada de se expressar, mas espero que ela seja gentil, e que a maturidade de um tempo a mais de estrada a faça mais do que eu consigo ser hoje. E talvez lendo isso ela se lembre das sensações de hoje: a dor de cabeça por uma noite mal dormida; a dificuldade de sustentar o peso do corpo sobre o tornozelo torcido; o corpo, cansado da improdutividade da semana; e a sensação se estar intoxicada pela procrastinação; uma pandemia e um cenário político de merda...

Sobre o email: ao menos eu consegui esquecer o que escrevi nele. Um conselho? Um pedido (inútil) de ajuda? Um desabafo? Não lembro. Mas prometo - pra mim - que quando chegar lerei com gentileza. 2019 foi foda pra ela… preciso honrar os seus esforços de nos trazer até aqui. 

E seguimos - para além do pacto hoje estabelecido - que a semana não terminou nem tampouco os trabalhos internos e externos; sacramentando a reativação desse canal de expressão, um recomeço tímido e receoso, que é o que temos pra hoje.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Leia só se estiver bêbado

Eu-lirismo